Prólogo
𒀀𒈾𒌋 𒀀𒊭𒋾𒀀𒊑 𒂗𒈠𒀀𒊑𒀀 𒋾𒌋𒆳 𒈾𒀀𒆳𒀀𒊑
ANUM ASTAR EM’ARA
“Da Origem nasceu o Equilíbrio.
Guarda-o.”
— Inscrição em Em’Ara, tradução incompleta dos Arquivos Primordiais
Nenhuma civilização desaparece verdadeiramente.
Apenas esquece quem foi.
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O Conclave dos Dois Círculos
A neve caía lentamente sobre a cordilheira, cobrindo a pedra com um manto branco que o vento redesenhava sem cessar. Não existiam estradas que conduzissem àquelas montanhas, nem trilhos marcados pela passagem de homens. Apenas antigos caminhos de altitude, estreitos e quase invisíveis, que o inverno fazia desaparecer sob camadas sucessivas de gelo, como se a própria montanha se encarregasse de apagar qualquer vestígio de quem por ali passara.
Àquela altitude, onde o ar rarefeito tornava cada respiração mais pesada e o silêncio parecia possuir uma consistência própria, o mundo permanecia suspenso entre a pedra e o céu. Os grandes impérios tinham nascido e desaparecido muito para sul; religiões tinham erguido templos, reis tinham levantado muralhas e cidades inteiras haviam sido engolidas pelo tempo. As montanhas, porém, continuavam ali, impassíveis, guardando um segredo muito mais antigo do que qualquer civilização.
Oculto sob aquele maciço de granito, existia um lugar cujo nome sobrevivera apenas nos manuscritos dos Arquivos Primordiais.
Em’Korah.
Durante quase dois mil anos, nenhum membro vivo das Grandes Casas voltara a atravessar as suas portas. A sua localização transformara-se numa memória herdada, transmitida de Patriarca para Patriarca com a mesma solenidade de um juramento. Conheciam-lhe o nome. Conheciam-lhe a importância. Mas nenhum deles poderia afirmar que conhecia verdadeiramente o caminho.
Porque Em’Korah nunca fora um lugar que se procurasse.
Era um lugar que chamava.
𒂗𒆳𒄭
A porta confundia-se com a própria montanha. Esculpida num único bloco de granito negro, elevava-se vários metros acima da sua cabeça, sem dobradiças visíveis, sem puxadores, sem qualquer sinal de que alguma vez tivesse sido aberta pela mão do homem. Durante durante séculos permanecera selada, protegida pelo silêncio e pelo esquecimento, como se a montanha a tivesse reclamado para si.
Foi então que ergueu os olhos.
Gravada no lintel, correndo de um extremo ao outro da pedra, encontrava-se uma inscrição em Em’Ara. Os sulcos eram profundos, precisos, e a erosão de tantos séculos parecia nunca lhes ter tocado.
𒀀𒈾𒌋 𒊑𒈠 𒆳𒁕 𒂗𒈠
Desde criança que Alessandro conhecia aquelas palavras. Tinham sido copiadas incontáveis vezes nos Arquivos Primordiais, estudadas pelos Patriarcas muito antes de assumirem a liderança das respetivas Casas. Ainda assim, ninguém afirmava compreender plenamente o seu significado.
A tradução preservada ao longo das gerações era simples.
A Origem não pertence ao tempo.
Os antigos mestres ensinavam que aquela frase não era um aviso nem um juramento. Era uma verdade. Uma verdade cujo sentido se perdera muito antes da Grande Ruptura e que sobrevivera apenas como um eco de uma civilização desaparecida.
O olhar de Alessandro desceu lentamente até ao centro da porta.
Ali, perfeitamente embutida na pedra, encontrava-se uma cavidade cilíndrica, lisa e sem qualquer ornamentação. À primeira vista poderia passar despercebida, mas as suas dimensões eram demasiado precisas para serem obra do acaso.
Durante um instante permaneceu imóvel. Conhecia aquela forma. Correspondia exactamente ao cilindro de bronze que trazia consigo.
Era a chave.
Retirou-o cuidadosamente do interior do manto. O bronze conservava a mesma superfície fria e imaculada do dia em que surgira na Casa Valtieri, como se o tempo tivesse desistido de o alcançar.
Introduziu-o na cavidade. Durante alguns segundos, nada aconteceu.
Alessandro manteve a mão pousada sobre o cilindro, sem saber se deveria rodá-lo ou simplesmente esperar.
Não foi necessário.
Uma vibração profunda percorreu a montanha, tão subtil que mais se sentiu do que se ouviu. Não era o som de engrenagens nem o estalar da pedra sob tensão. Parecia antes um murmúrio distante, como se algo adormecido despertasse lentamente nas profundezas da rocha.
Depois, a porta começou a mover-se.
Sem violência.
Sem esforço aparente.
Apenas com a solenidade de quem cumpria um gesto que aguardara desde então para voltar a acontecer.
Pela primeira vez desde o Quinto Conclave, Em’Korah voltava a abrir a sua porta.
𒋾𒁕
A pesada porta de pedra começou a mover-se com uma lentidão solene, revelando uma abertura mergulhada numa penumbra serena.
Do interior escapou um sopro de ar frio, trazendo consigo um odor mineral, antigo, impossível de associar a qualquer lugar conhecido. Não era o cheiro do abandono. Era o de um espaço que permanecera fechado ao mundo desde o último Conclave.
Permaneceu imóvel enquanto a passagem se alargava diante dele.
Alessandro Valtieri não avançou de imediato.
Permaneceu imóvel diante da entrada, deixando que o olhar se habituasse à escuridão e que o peso daquele instante assentasse dentro de si.
Do lado de fora, o vento continuava a percorrer as encostas. Podia ouvir-se o roçar da neve contra a pedra, o estalar distante de um ramo sob o peso do gelo, os sons dispersos da natureza que chegavam até à entrada da montanha.
Sempre acreditara que o tempo exagerava as histórias e ampliava a memória dos homens.
Bastou-lhe um único olhar para compreender que todos os seus antecessores tinham falhado.
Nenhum manuscrito conseguia preparar um homem para aquele silêncio.
Foi entao que tudo desapareceu.
Não de forma gradual.
O vento morreu atrás dele como se tivesse encontrado uma parede invisível. O som da neve, dos homens e da própria montanha ficou para trás. Durante alguns segundos, Alessandro teve a estranha sensação de ter deixado o mundo exterior do outro lado da porta.
O silêncio de Em’Korah não era ausência de som.
Tinha espessura.
Parecia ocupar o espaço entre as paredes e acompanhar cada movimento, absorvendo o ruído antes que este pudesse alcançar o fundo da sala.
Alessandro deu mais um passo.
O próprio som das suas botas sobre a pedra pareceu inadequado.
O eco não regressou.
Apenas se extinguiu.
Parou.
Deixou que os olhos se habituassem lentamente à penumbra e que o peso daquele instante assentasse dentro de si.
Durante toda a vida estudara Em’Korah através de relatos fragmentados, desenhos preservados nos Manuscritos Fundadores e descrições deixadas pelos poucos Patriarcas que ali tinham estado antes dele. Desde criança ouvira repetir que nenhum texto conseguia transmitir a verdadeira dimensão daquele lugar.
Sempre acreditara que o tempo exagerava as histórias e ampliava a memória dos homens.
Agora sabia que não.
Bastara-lhe atravessar aquela porta para compreender que todos os seus antecessores tinham falhado.
Nenhum manuscrito conseguia preparar um homem para aquele silêncio.
Alessandro respirou fundo.
Só então ergueu o olhar.
Diante dele, Em’Korah começava a revelar-se na penumbra.
E, pela primeira vez em quase dois mil anos, alguém voltava a entrar no espaço onde as Quatro Casas haviam guardado aquilo que o mundo nunca deveria ter conhecido.
A sala revelava-se pouco a pouco, como se a própria penumbra recusasse entregar todos os seus segredos de uma só vez. Não parecia construída; parecia ter nascido da montanha. As paredes elevavam-se num círculo perfeito, talhadas numa única massa de granito, sem juntas, sem marcas de ferramentas, sem qualquer imperfeição que denunciasse a intervenção humana. Havia naquela arquitectura uma precisão impossível, quase orgânica, como se a pedra tivesse sido moldada por leis que já não pertenciam ao mundo.
A luz era suave e difusa, sem que Alessandro conseguisse identificar a sua origem. Não existiam archotes, nem aberturas na rocha, nem qualquer outra fonte visível de iluminação. Ainda assim, tudo era perfeitamente discernível.
Foi então que os seus olhos encontraram a chama.
Ardia no centro da sala, pequena e intensamente azul, envolta por um recipiente de pedra escura cuja superfície parecia absorver a própria luz. A chama permanecia imóvel. Não vacilava ao menor movimento do ar, não produzia fumo, não consumia combustível algum.
Limitava-se a existir.
Durante anos interrogara-se sobre ela. As crónicas antigas mencionavam-nas inúmeras vezes, mas nenhum cronista tentara explicar a sua natureza. Agora que a via diante de si, Alessandro percebeu que a questão deixava de ser importante. O verdadeiro mistério não era a chama. Era a absoluta naturalidade com que aquele fogo parecia desafiar o tempo.
O olhar desceu finalmente para o pavimento.
Dois círculos perfeitos encontravam-se gravados na pedra, traçados com uma precisão quase matemática. O círculo interior acolhia quatro assentos orientados para a chama central; o exterior, ligeiramente mais amplo, completava a mesma geometria com outros quatro.
Oito lugares.
Nada mais.
Alessandro conhecia aquela disposição desde o dia em que se tornara Patriarca. Sabia onde se sentaria a Casa Valtieri, onde tomariam lugar Ardanza e Bryndor e qual o assento reservado, desde tempos imemoriais, à Casa Tian-Kor. Conhecia igualmente os lugares do círculo exterior, destinados aos Regentes das três Casas e ao Ancião de Tian-Kor, figura envolta numa reverência que nenhum documento ousava justificar.
Naquele instante, porém, as tradições orais deixavam de ser memória.
Tinham-se tornado realidade.
Aproximou-se lentamente do lugar reservado à Casa Valtieri, mas permaneceu de pé.
Não por protocolo.
Porque naquele espaço existia uma estranha sensação de presença, como se cada pedra conservasse a memória daqueles que ali se tinham reunido ao longo das eras. Sentar-se antes da chegada dos restantes Patriarcas pareceu-lhe, por um instante, quase uma forma de profanação.
Assim, esperou.
Em silêncio.
Como todos os que o haviam precedido.
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𒄭𒈾𒀀𒆳𒀀𒊑
Três semanas antes, Alessandro Valtieri iniciara o dia como iniciara todos os outros nos últimos cinquenta e oito anos.
Ainda antes do nascer do sol percorrera, como fazia todas as manhãs, os jardins interiores da Casa Valtieri. Era um hábito antigo, herdado do pai, que lhe permitia ordenar os pensamentos antes que as responsabilidades do dia reclamassem toda a sua atenção. Depois recolhera ao gabinete, onde o aguardavam os relatórios das expedições arqueológicas, a correspondência diplomática e os registos do Arquivo Primordial.
Nada fazia prever que aquela manhã seria diferente das restantes.
Empurrou a pesada porta de madeira e entrou sem pressa, já concentrado na longa lista de decisões que teria de tomar. O olhar dirigiu-se instintivamente para a secretária.
E então parou.
Havia um objeto no centro da mesa.
Durante um breve instante permaneceu completamente imóvel, como se a mente recusasse aceitar aquilo que os olhos viam. O gabinete encontrava-se exactamente como o deixara na noite anterior. Os livros permaneciam alinhados nas estantes, a cadeira ligeiramente afastada da secretária, os documentos cuidadosamente empilhados no canto direito.
Apenas um elemento quebrava aquela ordem meticulosa.
Um cilindro de bronze repousava sobre a madeira escura, perfeitamente alinhado com o centro da secretária, como se alguém o tivesse colocado ali com uma precisão quase cerimonial.
Alessandro aproximou-se lentamente.
Não tocou de imediato no objecto. Primeiro percorreu a sala com o olhar, observando cada detalhe como se esperasse encontrar uma explicação racional. A porta continuava fechada. As janelas permaneciam trancadas por dentro. O discreto painel de segurança junto à entrada não registava qualquer intrusão durante a noite.
Nada.
Absolutamente nada.
E, no entanto, o cilindro estava ali.
Baixou finalmente os olhos para o objecto.
O bronze possuía um tom escurecido que não lembrava a oxidação comum dos metais antigos, mas uma pátina uniforme, quase perfeita, como se os séculos lhe tivessem conferido dignidade em vez de desgaste. Finas gravações percorriam toda a superfície numa espiral contínua, desenhando caracteres da antiga língua primordial que Alessandro aprendera a reconhecer muito antes de compreender o seu significado.
No centro do cilindro, protegido por uma pequena janela de cristal translúcido, destacava-se uma única inscrição.
EM’KORAH
Logo abaixo encontravam-se umas coordenadas geográficas.
Não lhe eram familiares.
Nunca o seriam.
Os ensinamentos do pai referiam que as coordenadas inscritas nos cilindros nunca coincidiam exactamente entre si. Mudavam de Conclave para Conclave, como se o próprio caminho até Em’Korah obedecesse a regras que nenhuma das Casas conseguira decifrar.
Alessandro deixou que os dedos repousassem sobre o bronze.
O metal estava inesperadamente frio.
Não era o frio natural de um objecto esquecido durante a noite. Era uma frieza profunda, quase mineral, semelhante à da pedra escondida nas entranhas de uma montanha.
Fechou os olhos por um instante.
Durante toda a vida soubera que aquele dia podia chegar.
Desde o momento em que sucedera ao pai como Patriarca da Casa Valtieri, aprendera que existia apenas um objecto capaz de surgir sem mensageiro, sem testemunhas e sem explicação. Os Arquivos chamavam-lhe simplesmente o Chamamento.
Ao longo da memória que conhece, sempre que um Conclave era convocado, um cilindro idêntico aparecia diante de cada Patriarca.
Nunca antes.
Nunca depois.
Nunca falhara.
E nunca chegara ao homem errado.
Alessandro abriu lentamente os olhos.
Já não observava um artefacto.
Observava o fim de um silêncio que durara desde a última reunião das Casas.
Se Tian-Kor voltara a convocar as Grandes Casas, significava que alguma coisa, algures no mundo, já tinha começado a mudar.
E, pela primeira vez desde que assumira a liderança da Casa Valtieri, Alessandro teve a nítida sensação de que a História acabara de dar o primeiro passo numa direcção desconhecida.
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𒋾𒁕
Alessandro permaneceu junto ao lugar reservado à Casa Valtieri. Alguns passos atrás, em silêncio absoluto, encontrava-se Marcus Valtieri, Regente da Casa e seu sobrinho. Desde que tinham atravessado o limiar de Em’Korah não trocaram uma única palavra. Não era apenas uma questão de protocolo. Havia lugares onde o silêncio deixava de ser uma escolha para se tornar uma forma de respeito.
A chama azul continuava imóvel.
Não vacilava. Não diminuía. Parecia existir fora da passagem das horas.
Foi então que um som grave voltou a percorrer o interior da montanha.
Alessandro desviou lentamente o olhar para a entrada.
A porta de pedra abria-se uma segunda vez.
Duas figuras atravessaram o limiar.
O primeiro homem caminhava com a serenidade de quem aprendera, desde muito cedo, a esconder o peso das decisões atrás de uma postura irrepreensível. Alto, de cabelos grisalhos e expressão serena, usava um manto negro preso por um antigo broche de prata onde sobressaía o símbolo da Casa Ardanza.
Era Rodrigo Ardanza.
Atrás dele seguia Alejandro Ardanza, Regente da Casa e seu primo, mantendo a distância exacta que a tradição exigia. O olhar percorria discretamente cada detalhe da sala, mas bastou-lhe cruzar a entrada para compreender aquilo que tantas gerações haviam tentado descrever sem sucesso.
Nenhum relato fazia justiça àquele lugar.
Rodrigo deteve-se por um breve instante.
Os seus olhos demoraram-se na chama azul, depois nos dois círculos gravados na pedra e, por fim, encontraram Alessandro.
Durante alguns segundos, nenhum dos dois homens se moveu.
Conheciam-se há muitos anos. Tinham partilhado reuniões, negociações e desacordos. Defendiam visões diferentes para o futuro das Casas, mas havia momentos em que essas diferenças deixavam de ter importância.
Alessandro inclinou ligeiramente a cabeça.
Rodrigo retribuiu o gesto.
Não era uma saudação entre amigos.
Nem entre rivais.
Era o reconhecimento silencioso de dois Patriarcas conscientes de que estavam a viver um momento que nenhum deles acreditara presenciar.
Rodrigo aproximou-se do assento reservado à Casa Ardanza.
Tal como Alessandro, permaneceu de pé.
Atrás dele, Alejandro ocupou discretamente o lugar correspondente no círculo exterior, sem se sentar. Marcus fez o mesmo junto ao lugar reservado à Casa Valtieri.
Ainda faltavam chegar duas Casas.
E, enquanto o quarto assento permanecesse vazio, ninguém quebraria o ritual que atravessara quase dois mil anos.
O silêncio voltou a instalar-se sobre Em’Korah.
Mas já não era o silêncio da espera.
Era o silêncio de uma história que começava, finalmente, a reunir os seus protagonistas.
Alessandro Valtieri
Rodrigo Ardanza
𒄭𒈾𒀀𒆳𒀀𒊑
Três semanas antes…
Alejandro Ardanza regressara à sede da Casa ao início da manhã.
As semanas passadas nas Colónias tinham sido mais longas do que previra e, antes mesmo de desfazer a bagagem, dirigiu-se à biblioteca privada do Patriarca. Sabia que Rodrigo passava ali grande parte dos dias e queria pô-lo a par dos progressos das escavações antes da reunião do Conselho.
A biblioteca estava vazia.
A luz atravessava os vitrais altos e desenhava manchas douradas sobre o soalho antigo. O silêncio era absoluto.
Foi então que reparou num artefacto.
Repousava sobre a grande mesa de leitura, exactamente no centro, como se tivesse sido colocado ali para ser encontrado.
Alejandro aproximou-se.
Era um pequeno cilindro de bronze, mais pesado do que aparentava, coberto por inscrições que reconheceu de imediato como Em’Ara. Nunca vira uma peça semelhante nos arquivos da Casa.
Pegou-lhe instintivamente.
O metal estava frio.
Estranhamente frio.
Franziu o sobrolho, observando a pequena janela de cristal embutida na superfície.
No interior distinguia-se apenas uma palavra.
EM’KORAH.
Logo abaixo, um conjunto de coordenadas gravadas com uma precisão invulgar.
Alejandro permaneceu alguns segundos imóvel, tentando recordar onde já tinha visto aquele formato.
Não conseguiu.
Saiu da biblioteca com o cilindro nas mãos.
Encontrou Rodrigo nos jardins interiores.
O Patriarca ajoelhava-se junto a um pequeno canteiro de pedra branca. Sobre um pano de linho repousavam várias peças acabadas de chegar de um leilão em Alexandria: pequenas estatuetas votivas, fragmentos de cerâmica e um antigo astrolábio de bronze ainda coberto pelo pó do deserto.
Rodrigo limpava cuidadosamente uma das peças com um pincel macio.
— Trouxeste mais antiguidades? — perguntou Alejandro, aproximando-se.
Sem esperar resposta, estendeu-lhe o cilindro.
— Encontrei isto na biblioteca.
Rodrigo ergueu distraidamente os olhos.
O pincel ficou suspenso no ar.
Durante um instante pareceu não respirar.
Levantou-se muito devagar.
O olhar permaneceu fixo no cilindro, incapaz de se desviar dele.
— Onde… onde o encontraste?
— Na biblioteca. Estava em cima da mesa.
Rodrigo não respondeu.
A cor abandonara-lhe lentamente o rosto.
Alejandro nunca o vira assim.
Nem quando perderam o pai.
Nem durante as crises que ameaçaram dividir as Casas.
Nem perante as descobertas arqueológicas mais extraordinárias.
Havia naquela expressão algo que ultrapassava o espanto.
Era o reconhecimento de um destino que sempre acreditara não ter de enfrentar.
Alejandro deu um passo em frente.
— Sabes o que é?
Rodrigo fechou os olhos por um breve instante.
Quando voltou a abri-los, havia uma tristeza antiga no seu olhar.
— Não… sim…
A voz saiu quase num sussurro.
— Preferia morrer…
Fez uma pausa.
Os olhos regressaram ao cilindro.
— …a vê-lo.
O silêncio que se seguiu pareceu mais pesado do que qualquer resposta.
Alejandro olhou novamente para o objecto.
Continuava a ver apenas um cilindro de bronze.
Mas, pela forma como Rodrigo o contemplava, percebeu que segurava nas mãos algo que nunca deveria ter existido no seu tempo.
O Patriarca respirou fundo.
— Vamos para a biblioteca.
Sem esperar resposta, começou a caminhar.
Alejandro seguiu-o em silêncio.
Já não procurava respostas.
Começava a temer as perguntas.
Rodrigo entrou na biblioteca sem abrandar o passo.
Esperou apenas que Alejandro atravessasse a porta antes de a fechar cuidadosamente atrás de si. Rodou a chave uma única vez, retirou-a da fechadura e guardou-a no bolso do casaco.
Só então voltou a olhar para o Regente.
Durante alguns segundos permaneceu em silêncio, como se procurasse ordenar pensamentos que nunca imaginara ter de verbalizar.
Alejandro conhecia-o desde que tinha nascido.
Nunca o vira tão perturbado.
Rodrigo afastou-se sem dizer palavra e caminhou até à estante mais antiga da biblioteca. Era uma peça maciça de nogueira escura, construída muito antes da fundação da residência actual e trazida pedra a pedra da antiga sede da Casa Ardanza.
Percorreu lentamente as lombadas dos livros com a ponta dos dedos.
Não parecia procurar um volume.
Parecia recordar um gesto.
Por fim, retirou três manuscritos de tamanhos diferentes.
Depois um quarto.
E, finalmente, um pequeno códice encadernado em couro negro, completamente desprovido de qualquer inscrição.
Atrás dele surgiu uma cavidade estreita escavada na própria parede.
Alejandro franziu o sobrolho.
Durante todos aqueles anos desconhecera a existência daquele compartimento.
Rodrigo introduziu a mão no interior e retirou um embrulho cuidadosamente envolvido em tecido de linho envelhecido.
Depositou-o sobre a mesa.
Durante alguns instantes limitou-se a desfazer lentamente os nós da fita que o prendia.
Nenhum dos dois falou.
O silêncio parecia fazer parte daquele ritual.
Quando afastou o tecido, surgiram seis manuscritos.
O pergaminho tinha adquirido a tonalidade dourada própria dos séculos. As capas, sem qualquer ornamentação, exibiam apenas um pequeno símbolo gravado a fogo no canto inferior.
Alejandro nunca o tinha visto.
Rodrigo pousou ambas as mãos sobre os manuscritos.
Respirou fundo.
— Sabes porque razão nunca te mostrei isto?
Alejandro abanou lentamente a cabeça.
— Porque nunca chegou o momento?
Rodrigo esboçou um sorriso breve.
Triste.
— Não.
Ergueu um dos manuscritos.
— Porque nenhum Regente deve conhecê-los.
Alejandro permaneceu em silêncio.
Rodrigo voltou a pousar o manuscrito sobre a mesa.
— Cada Patriarca recebe-os no dia em que sucede ao seu predecessor.
— E ninguém mais?
— Ninguém.
A resposta foi imediata.
— Nem o Regente.
Alejandro olhou para os pergaminhos como se estivesse a ver um artefacto novo descoberto num buraco qualquer, descoberto do nada .
— Então… porque mo estás a mostrar?
Rodrigo permaneceu alguns segundos imóvel.
Depois desviou lentamente o olhar para o cilindro de bronze que repousava sobre a mesa.
A luz da biblioteca reflectia-se discretamente sobre o pequeno visor onde permanecia gravada a palavra EM’KORAH.
— Porque, até esta manhã, acreditava que estes manuscritos morreriam comigo.
Fez uma pausa.
— Era esse o destino deles.
Passou a mão sobre a capa do primeiro volume.
Quase com carinho.
— Cada Patriarca transmitia-os apenas ao seguinte. Nunca antes. Nunca depois.
O silêncio voltou a instalar-se.
Rodrigo ergueu finalmente os olhos para Alejandro.
— Mas o aparecimento desse cilindro muda tudo. Já não podemos esperar pela minha morte.
Alejandro aproximou-se da mesa.
O coração batia-lhe mais depressa do que gostaria de admitir.
Rodrigo abriu lentamente o primeiro manuscrito.
As páginas revelaram uma escrita antiga, executada na língua primordial, acompanhada por anotações muito mais recentes feitas por sucessivas gerações de Patriarcas da Casa Ardanza.
O Patriarca percorreu as primeiras linhas com o olhar.
Depois falou.
— O que vais ler nunca foi ensinado a nenhum Regente. Nem sequer consta dos Arquivos da Casa.
Fechou por instantes os olhos.
Como quem aceitava definitivamente uma decisão sem regresso.
— Porque esta não é a história da Casa Ardanza.
Ergueu o olhar para Alejandro.
— É a história daquilo que as Quatro Casas juraram esquecer.
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𒋾𒁕
Eamon permaneceu igualmente imóvel.
Mas o seu olhar era diferente.
Não contemplava a grandiosidade da sala.
Reconhecia-a.
Como quem reencontra um lugar que habitara durante toda a vida através das palavras de outros.
Desde muito jovem aprendera que a memória não era apenas uma sucessão de acontecimentos, mas uma responsabilidade. Ao contrário das restantes Casas, os Bryndor preservavam não apenas os seus próprios arquivos, mas também cópias, transcrições e tradições orais recolhidas ao longo dos séculos junto das outras linhagens. Durante gerações, o Círculo dos Doze reunira fragmentos dispersos da mesma história, comparando versões, preservando contradições e recusando apagar aquilo que não compreendia.
Foi assim que sobreviveram relatos que todas as outras Casas julgavam perdidos.
Descrições incompletas de Em’Korah.
Pequenas notas escritas por Patriarcas que ali tinham estado.
Orações recitadas de memória durante séculos.
Mapas impossíveis de interpretar.
E testemunhos tão antigos que já ninguém conseguia distinguir onde terminava a História e começava a tradição.
Ao longo de décadas, Eamon estudara cada um desses fragmentos.
Conhecia as medidas aproximadas da sala muito antes de a ver.
Sabia que existiam dois círculos gravados no pavimento.
Sabia que uma chama azul ardia no centro desde um tempo anterior à Grande Ruptura.
Sabia até que o silêncio de Em’Korah era descrito, em todos os relatos, como uma presença e não como uma ausência de som.
Mas nenhuma palavra…
Nenhuma ilustração…
Nenhum manuscrito…
fora capaz de preparar um homem para a realidade.
Naquele instante compreendeu que o maior legado da Casa Bryndor nunca fora conservar respostas.
Fora impedir que as perguntas desaparecessem.
E talvez fosse precisamente por isso que, entre as quatro Grandes Casas, apenas os Bryndor ainda preservavam uma memória colectiva da Civilização Primordial – não como uma verdade absoluta, mas como um mosaico de vozes que se recusavam a cair no esquecimento.
Durante anos, Eamon acreditara que os manuscritos Bryndor representavam a memória mais completa que sobrevivera da Civilização Primordial.
Agora compreendia que eram apenas ecos.
Recordou um antigo pergaminho onde um Patriarca descrevera Em’Korah como “um espaço onde a pedra parece recordar antes dos homens”. Durante décadas julgara tratar-se de uma metáfora poética, uma forma de transmitir a solenidade daquele lugar.
Ao atravessar aquelas portas, percebeu que o autor apenas tentara descrever o indescritível.
Lembrou-se de outro texto, muito mais fragmentado, onde se afirmava que nenhuma sombra permanecia igual em Em’Korah ao longo de um Conclave. Durante anos, os estudiosos do Círculo dos Doze tinham debatido aquela passagem, atribuindo-a ao movimento da chama central ou à inclinação da luz.
Agora sabia que a dúvida nunca estivera na interpretação.
Estivera na falta de experiência.
Havia qualquer coisa naquele espaço que escapava à linguagem.
Os manuscritos não tinham exagerado.
Tinham falhado apenas porque nenhuma palavra conseguia transportar um homem para aquele silêncio.
O olhar percorreu lentamente a sala.
As proporções correspondiam quase exactamente aos desenhos preservados nos Arquivos Bryndor.
A disposição dos círculos. A orientação dos assentos. A posição da chama.
Até a distância entre cada lugar coincidia com medições copiadas e recopiadas ao longo de quase dois mil anos.
E, no entanto…
A realidade possuía uma ordem que nenhum desenho conseguira conservar.
Como se cada linha obedecesse a uma harmonia invisível que apenas podia ser compreendida estando ali.
Enquanto Eamon permanecia imóvel, Connor afastou-se alguns passos.
Aproximou-se lentamente da parede de pedra.
Estendeu a mão.
Os dedos deslizaram sobre a superfície irregular.
Esperava encontrar as marcas habituais deixadas pelas ferramentas dos antigos canteiros.
Não encontrou nenhuma. A pedra parecia ter nascido daquela forma. Como se a montanha nunca tivesse sido escavada. Como se Em’Korah não tivesse sido construída.
Mas revelada.
Connor passou lentamente a palma da mão pela rocha fria.
Fechou os olhos por um instante.
Não sabia explicar porquê, mas tinha a estranha sensação de que o lugar não estava abandonado.
Permanecia…
À espera.
Quando voltou a abrir os olhos, encontrou Eamon a observá-lo.
O Patriarca sorriu discretamente.
— Também tu sentes.
Connor demorou alguns segundos a responder.
Depois assentiu.
— Não parece um edifício.
A voz saiu quase num sussurro.
— Parece uma memória.
Eamon voltou o olhar para a chama azul.
Durante toda a vida ensinara que os lugares podiam preservar a História.
Naquele instante ocorreu-lhe uma possibilidade que nunca antes ousara considerar.
Talvez existissem lugares capazes de preservar muito mais do que isso.
Em'Korah
Eamon Bryndor
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𒄭𒈾𒀀𒆳𒀀𒊑
Três semanas antes…
A Sala da Memória encontrava-se em silêncio.
Ao contrário das restantes Casas, onde as decisões mais importantes pertenciam ao Patriarca e ao seu Conselho, na Casa Bryndor nada de verdadeiramente relevante era decidido sem que primeiro fosse ouvido o Círculo dos Doze.
Doze Mestres.
Doze disciplinas.
Doze defensores de diferentes fragmentos da memória humana.
História. Línguas. Cartografia. Astronomia. Arquitectura. Filosofia. Tradições Orais. Religiões Antigas. Direito. Cronologia. Genealogia. E Arqueologia.
Cada um representava um ramo do conhecimento considerado essencial para impedir que o passado desaparecesse.
No centro da sala, uma mesa circular de carvalho reunia-os desde havia séculos. Não existia um lugar de destaque. Nem sequer o Patriarca ocupava uma posição privilegiada.
Na Casa Bryndor, a memória estava acima da autoridade.
Eamon presidia apenas porque lhe competia preservar o equilíbrio entre todas as vozes.
Connor encontrava-se à sua direita, tomando discretamente notas sobre uma tradução recentemente chegada das Colónias Orientais.
A discussão decorria há quase duas horas.
Sobre a mesa repousavam vários fragmentos cerâmicos e três cópias de um mesmo texto provenientes de escavações diferentes.
— As três versões utilizam o mesmo ideograma… – observava um dos Mestres. – Mas o contexto altera completamente o significado.
— Ou talvez sejamos nós que ainda não compreendemos o contexto – respondeu outro.
Eamon escutava em silêncio. Nunca apressava uma conclusão. A memória exigia paciência.
Foi então que ouviram bater à porta.
Três vezes.
Lentas.
Perfeitamente espaçadas.
A discussão interrompeu-se. Nenhum visitante chegava sem aviso durante uma sessão do Círculo.
Connor levantou-se.
Ao abrir a porta, encontrou um homem desconhecido.
Vestia uma túnica branca, simples, sem qualquer bordado ou insígnia. Não aparentava mais de cinquenta anos, embora houvesse qualquer coisa no seu rosto que tornava impossível adivinhar-lhe a idade. Os cabelos escuros caíam-lhe sobre os ombros e os olhos mantinham uma serenidade difícil de sustentar.
Não parecia perdido.
Parecia saber exactamente onde estava.
Connor observou-o durante alguns segundos.
Não o reconhecia.
— Posso ajudá-lo?
O homem não respondeu.
Limitou-se a fitá-lo. Sem agressividade. Sem urgência. Como se aguardasse que o próprio silêncio abrisse caminho. Connor desviou-se instintivamente.
Mais tarde, seria incapaz de explicar porquê.
O desconhecido entrou.
Nenhum dos Mestres falou. À medida que atravessava lentamente a sala, o som dos seus passos desaparecia sob o peso daquele silêncio estranho que parecia acompanhá-lo.
Parou junto da mesa circular. Com um gesto sereno, retirou do interior da túnica um pequeno cilindro de bronze. Depositou-o no centro da mesa. O metal produziu um som seco ao tocar na madeira. Foi o único ruído que se ouviu.
Todos os olhares convergiram para o objecto.
Eamon sentiu o coração apertar.
Reconheceu imediatamente as inscrições.
Não porque alguma vez tivesse visto aquele cilindro.
Mas porque passara décadas a estudar os poucos desenhos preservados nos Arquivos Primordiais.
Ergueu lentamente o olhar para o desconhecido.
— Quem é?
O homem permaneceu imóvel.
Depois respondeu com uma voz calma, quase sem inflexão.
— O Tempo chama a Memória.
Nada mais. Voltou-se. Dirigiu-se para a porta.
Connor reagiu de imediato.
Saiu atrás dele.
O corredor encontrava-se vazio. Correu até às escadas. Nada.
Chamou pelos guardas. Dois homens aproximaram-se quase imediatamente.
— Para onde foi o homem que acabou de entrar?
Os guardas entreolharam-se, confusos.
— Que homem, Senhor Regente?
Connor franziu o sobrolho.
— O homem da túnica branca.
Ambos abanaram lentamente a cabeça.
— Desde que a reunião começou, ninguém entrou neste corredor.
Connor permaneceu imóvel durante alguns instantes.
Depois regressou à Sala da Memória.
Os doze Mestres continuavam sentados. Ninguém falava.
No centro da mesa permanecia apenas o cilindro de bronze.
Eamon mantinha o olhar fixo nele.
Como se estivesse a rever, um por um, todos os manuscritos que estudara ao longo da vida.
Sem desviar os olhos do objecto, murmurou quase para si próprio:
— Durante séculos perguntámo-nos se o Chamamento era apenas uma tradição.
A sua voz tornou-se ainda mais baixa.
— Afinal…
ergueu lentamente a mão, mas não lhe tocou.
— …nunca deixou de existir.
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O silêncio voltou a instalar-se sobre Em’Korah.
Agora eram seis.
Os três Patriarcas encontravam-se diante dos lugares reservados às suas Casas; atrás deles, no círculo exterior, permaneciam os respectivos Regentes. Nenhum se sentava. Assim determinava a tradição. Enquanto todos os convocados não estivessem presentes, o Conclave ainda não existia.
No centro da sala, a chama azul continuava a arder com a mesma serenidade impossível. Não vacilava. Não produzia fumo. Limitava-se a existir, indiferente aos homens que, geração após geração, ali regressavam para decidir acontecimentos que moldariam séculos de História.
Durante alguns instantes, ninguém pronunciou uma única palavra.
O silêncio de Em’Korah não era incómodo. Impunha-se naturalmente, como se aquele lugar tivesse sido concebido para recordar aos homens que nem todas as verdades precisavam de ser ditas.
Ao longe, algures nas profundezas da montanha, ouvia-se apenas o murmúrio constante da água. Um som tão ténue que, por momentos, parecia impossível distinguir se vinha da rocha ou da memória daquele lugar.
Rodrigo foi o primeiro a quebrar o silêncio.
Continuava de olhos fixos na porta por onde todos tinham entrado.
— Ainda me custa acreditar…
A frase perdeu-se antes de chegar ao fim.
Não era necessário completá-la.
Eamon compreendeu-a de imediato.
— Que voltaram.
Rodrigo assentiu lentamente.
— Durante muitos anos convenci-me de que Tian-Kor não passava de uma tradição demasiado antiga para ser questionada.
Alessandro deixou escapar um sorriso discreto.
Não de ironia.
De reconhecimento.
— Todos pensámos isso… pelo menos uma vez.
Connor observou os três Patriarcas antes de falar.
— Mas os Arquivos nunca sugeriram que tivessem desaparecido.
Eamon voltou-se para ele.
Nos seus olhos havia a serenidade de quem repetia uma lição aprendida ainda em criança.
— A memória nunca deve confundir ausência com desaparecimento.
Fez uma breve pausa.
— Os nossos Arquivos deixaram apenas de encontrar testemunhos.
Rodrigo passou lentamente a mão pela barba.
— Nenhuma das nossas Casas encontrou um único membro de Tian-Kor em quase dois mil anos.
— Porque nunca quiseram ser encontrados. – respondeu Eamon com simplicidade.
Não havia censura na sua voz. Nem admiração.
Apenas a constatação de um facto que a Casa Bryndor preservava havia séculos.
Marcus, que até então permanecera em silêncio, desviou finalmente o olhar da chama.
— Então porquê agora?
As palavras ecoaram suavemente na sala.
Não esperavam verdadeiramente uma resposta.
Ainda assim, todos permaneceram imóveis durante alguns instantes.
Talvez porque, pela primeira vez desde que atravessaram as portas de Em’Korah, a pergunta deixava de pertencer apenas a Marcus.
Pertencia aos seis.
Porque motivo quebrara Tian-Kor um silêncio de quase dois mil anos?
Ninguém respondeu.
Nem podia.
O conhecimento preservado pelas quatro Grandes Casas terminava precisamente aí.
Depois disso…
existiam apenas hipóteses. O silêncio voltou a cair sobre a sala. Mais profundo. Mais pesado.
Como se até a montanha aguardasse a resposta antes de permitir que o tempo voltasse a avançar.
Quanto tempo passou? Nenhum deles seria capaz de o dizer.
Em’Korah parecia libertar os homens dessa necessidade.
Ali, os instantes deixavam de ser medidos. Limitavam-se a acontecer.
Foi então que um som grave percorreu lentamente a sala.
A pedra começou a mover-se.
Nenhum dos seis desviou imediatamente o olhar.
Pela primeira vez desde que ali entrara, Alessandro sentiu que não esperavam apenas pela chegada da quarta Casa.
Esperavam por algo que sobrevivera a todas elas.
A abertura alargou-se lentamente.
Nenhum passo ecoou no corredor.
Nenhuma voz se fez ouvir.
Apenas o deslizar lento da antiga porta.
Quando o corredor finalmente se revelou por completo, uma única figura surgiu na penumbra.
Vestia branco.
E caminhava com a serenidade de quem nunca chegava cedo nem tarde.
Apenas…
no momento certo.
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A figura atravessou lentamente o limiar de Em’Korah.
Vestia uma túnica branca de linhas simples, presa apenas por um pequeno broche circular em bronze antigo. Não ostentava qualquer insígnia de autoridade, nem qualquer ornamento que distinguisse a sua posição. Ainda assim, havia na forma como caminhava uma serenidade que parecia pertencer mais ao lugar do que ao homem.
Nenhum dos Patriarcas o reconheceu.
Nunca o tinham visto.
As três Casas nunca souberam quem sucedera aos últimos Patriarcas Tian-Kor. Os nomes tinham-se perdido muito antes da memória dos homens vivos, sobrevivendo apenas referências dispersas em manuscritos demasiado antigos para serem confirmados.
Durante quase dois mil anos, Tian-Kor deixara de ter rostos.
Restara apenas uma ideia. Uma presença distante. Quase uma lenda.
Ao aproximar-se do círculo interior, deteve-se por um instante diante da chama azul.
Baixou ligeiramente a cabeça, num gesto que parecia menos uma saudação e mais um reconhecimento.
Só depois voltou o olhar para os homens que o aguardavam.
Os seus olhos demoraram-se em cada rosto.
Primeiro Alessandro. Depois Rodrigo. Por fim, Eamon.
Não havia surpresa.
Como se aquele encontro estivesse destinado desde muito antes de qualquer um deles nascer.
Kael inclinou respeitosamente a cabeça.
— Patriarca Valtieri.
Alessandro correspondeu ao gesto.
— Patriarca Tian-Kor.
Seguiu-se Rodrigo. Depois Eamon. Nenhum apertou a mão do outro.
Em’Korah nunca fora lugar para formalidades sociais.
As próprias Casas eram a apresentação suficiente. Durante alguns instantes permaneceram apenas a observar-se. Era estranho. Tinham estudado e preservado durante toda a vida a História das quatro Grandes Casas. Conheciam os juramentos da fundação. As alianças. As grandes decisões que moldaram os primeiros séculos após a Grande Ruptura.
Depois…
a narrativa interrompia-se. Não porque faltassem cronistas. Mas porque Tian-Kor deixara simplesmente de caminhar ao lado das outras Casas. Restavam apenas alusões. Fragmentos.
Referências demasiado antigas para serem verificadas e demasiado consistentes para serem ignoradas.
Pela primeira vez em quase dois milénios, essas páginas deixavam de pertencer aos Arquivos.
Tinham ganho um rosto. Foi Rodrigo quem acabou por sorrir discretamente.
— Confesso que começava a acreditar que eram apenas uma boa história inventada pelos Bryndor. Kael sorriu pela primeira vez. Era um sorriso discreto. Sereno. Sem qualquer ofensa.
Voltou ligeiramente o rosto para Eamon.
— Se assim fosse… a Casa Bryndor teria preservado uma mentira durante muitos séculos.
Eamon devolveu-lhe o sorriso.
— Nunca tivemos esse hábito.
Por breves instantes, a tensão pareceu aliviar-se. Mesmo Alessandro deixou escapar um sorriso quase imperceptível. Kael voltou então a olhar para a sala. O seu olhar percorreu lentamente os três lugares ocupados. Depois deteve-se no quarto.
O lugar da Casa Tian-Kor. Permaneceu imóvel. Como se aguardasse alguém.
Rodrigo franziu ligeiramente o sobrolho.
— Não vem sozinho.
Não era uma pergunta. Kael respondeu sem desviar os olhos do assento vazio.
— Nunca.
A palavra caiu sobre Em’Korah com uma serenidade inesperada. Nenhum dos presentes voltou a falar.
Sem que soubessem porquê…
todos compreenderam que a chegada do Patriarca nunca fora o verdadeiro momento que aguardavam. Kael dera-lhes apenas a certeza de que a espera ainda não terminara. Então…
ouviu-se novamente o lento deslizar da pedra. A porta, que permanecera entreaberta desde a sua entrada, começou a abrir-se um pouco mais. Kael permaneceu imóvel.
Não ocupou o lugar reservado à sua Casa.
Não desviou o olhar da porta.
Esperou. Durante alguns instantes, ninguém compreendeu porquê. Depois…
a antiga porta de pedra voltou a mover-se. Desta vez, ainda mais lentamente. O som percorreu a sala como uma lembrança esquecida. Nenhum dos presentes falou.
Nem mesmo Rodrigo, que até então parecera determinado a quebrar o peso daquele silêncio sempre que este se tornava excessivo. Todos os olhares convergiram para a abertura. Da penumbra do corredor surgiu uma segunda figura.
Era um homem idoso. Muito idoso.
Os cabelos, longos e completamente brancos, desciam-lhe até aos ombros. A barba acompanhava-lhes o movimento, cuidadosamente tratada, sem qualquer ostentação. Vestia uma túnica semelhante à de Kael, igualmente branca, mas sem o broche que identificava o Patriarca. Apenas um fino cordão cinzento envolvia-lhe a cintura.
Apoiava-se num bastão de madeira escura. Não porque parecesse frágil. Mas porque aquele bastão parecia fazer parte dele desde sempre. Caminhava devagar. Cada passo possuía a tranquilidade de quem nunca precisara de correr para chegar ao destino.
Connor observou-o com curiosidade. Marcus franziu ligeiramente o sobrolho. Alejandro procurava instintivamente algum símbolo que identificasse aquele homem. Não encontrou nenhum.
Foi então que aconteceu. Kael inclinou profundamente a cabeça.
Não era uma saudação.
Era um gesto de respeito.
Um respeito absoluto.
Nenhum dos três Patriarcas o esperava. Muito menos os Regentes. Alessandro foi o primeiro a compreender. Não sabia quem era aquele homem. Mas sabia reconhecer quando um Patriarca prestava homenagem a alguém. Sem trocar uma palavra com os restantes, fez o mesmo. Rodrigo acompanhou-o quase de imediato. Eamon fechou lentamente os olhos antes de inclinar também a cabeça. Os três Regentes permaneceram imóveis durante uma fração de segundo. Olharam para os seus Patriarcas. Depois repetiram o gesto. Sem saberem porquê.
O velho continuou a caminhar. Não parecia reparar na reverência. Nem esperar por ela. Os seus olhos percorriam lentamente a sala. Não avaliavam. Recordavam. Como quem regressa a uma casa onde vivera durante muito tempo.
Ao aproximar-se da chama azul, deteve-se. Permaneceu alguns segundos a observá-la. Nos seus olhos não existia surpresa. Nem admiração. Apenas reconhecimento.
Depois voltou-se para os presentes. O seu olhar demorou-se em cada um deles. Quando encontrou Alessandro, sorriu discretamente. O mesmo aconteceu com Rodrigo. Depois Eamon. Como se já os conhecesse.
Como se os tivesse esperado durante toda a vida. Ou talvez…
durante muitas vidas.
O silêncio era agora diferente. Já não pesava. Esperava.
Foi Kael quem o rompeu. A sua voz saiu baixa, serena, quase como uma apresentação que há muito deveria ter acontecido.
— Ancião…
O velho aproximou-se do círculo exterior. Parou diante do assento reservado à Casa Tian-Kor. Só então ergueu novamente o olhar. Quando falou, a voz era surpreendentemente firme. Não elevada. Não solene. Apenas serena.
— Bem-vindos de novo…
Fez uma breve pausa. Os olhos percorreram lentamente a sala.
— … a Em’Korah.







